Existem poucos momentos na vida de um profissional de vinhos que se sentem verdadeiramente elétricos, e sentar-me frente a frente com Sébastien Le Golvet em Hong Kong foi, sem dúvida, um deles. Durante anos tive o privilégio de partilhar Henri Giraud com colecionadores por toda a cidade – a sua profundidade, a sua textura, aquele sussurro inconfundível do antigo carvalho de Argonne que deixa sempre uma marca duradoura no palato e na conversa. Tinha lido a sua história muitas vezes, mas nada se compara a ouvi‑la diretamente, cara a cara: a visão, as escolhas deliberadas, a rebelião silenciosa contra a uniformidade e, acima de tudo, a filosofia de que “os melhores vinhos da região são os vinhos de amanhã, não os vinhos de hoje”. Sébastien não se limita a fazer Champagne; ele cria vinhos que transcendem o tempo, antecipando a forma como irão evoluir para que, anos ou décadas mais tarde, falem na perfeição aos palatos de quem os abrir. É uma abordagem orientada para o futuro, envolta em sabedoria ancestral, e é isso que torna Henri Giraud tão profundamente especial.
A Entrevista
Mariana: Sébastien, bem‑vindo a Hong Kong! Temos vindo a partilhar Henri Giraud com os nossos colecionadores aqui há anos — com a sua profundidade, textura e aquele sussurro característico de carvalho de Argonne, deixa sempre uma impressão duradoura. Hoje estamos entusiasmados por ir além do copo e ouvir‑te: não apenas como fazes Champagne, mas porque é que o fazes da forma como fazes.
Sébastien: Antes de mais, para fazer um grande Champagne é preciso fazer um grande vinho, e esse grande vinho vem de um grande terroir – como Aÿ. Mas quando tens um grande vinho de Aÿ, também precisas de um cenário bonito. Esse cenário é a floresta de Argonne, onde seleciono as árvores para fabricar as nossas barricas. Para mim é fundamental ir à floresta, escolher eu próprio as árvores e criar este vinho excecional que temos a sorte de partilhar convosco aqui em Hong Kong. Ao mesmo tempo, um grande vinho é algo que nos faz viajar juntos e solta as línguas — isso, para mim, é o que mais importa.
Mariana: Numa região onde tradição muitas vezes significa jogar pelo seguro, escolheste um caminho diferente – fermentações selvagens, carvalho antigo, vinhos com alma em vez de uniformidade. O que é a única coisa que gostarias que mais pessoas compreendessem sobre o espírito por detrás de Henri Giraud? E o que é que esse carvalho de Argonne com 200 anos dá aos teus vinhos que o inox ou barricas mais jovens nunca poderiam dar?
Sébastien: Trabalhar com carvalhos com mais de 200 anos é central para aquilo que somos. Quando colhemos uma dessas árvores na floresta de Argonne, prestamos‑lhe homenagem; estudamos a “estação” exata – o microecossistema – em que cresceu. Um carvalho de 200 anos continua a ser um ser vivo, tal como o vinho é um ser vivo. Utilizar pequenas barricas de Argonne permite‑nos trabalhar de forma diferente do que com grandes cubas de inox. É também uma questão de história: antes da década de 1950 havia mais de 150 tanoeiros na floresta de Argonne. Somos movidos por essa mesma visão artesanal de luxo.
Mariana: Os teus vinhos têm uma energia arrojada, quase selvagem, textura rica, nuances oxidativas, verdadeira profundidade. Isso é intencional? Alguma vez te preocupas que possa surpreender os consumidores tradicionais de Champagne?
Sébastien: Sim, os nossos vinhos são cheios de energia – chamamos‑lhe “energia interior”. Para nós a estrela não são as bolhas; a estrela é o próprio vinho! Um grande vinho que te faz vibrar e traduz o terroir de Aÿ Grand Cru, agora classificado pela UNESCO, com a sua mineralidade e riqueza. Algumas notas oxidativas suaves são naturais quando se estagia em carvalho, e sim, isso pode ser surpreendente porque não fazemos Champagne como toda a gente. Procuramos riqueza e profundidade; as bolhas estão lá apenas para acompanhar o vinho. Quando provas Henri Giraud pela primeira vez, é o vinho que enche a boca e um nariz extraordinário que te marca. Essa diferença, essa diferenciação, é exatamente aquilo que procuro.
Mariana: Para os colecionadores em Hong Kong que escolhem entre Fût de Chêne PR e MV – ambos sem ano e com preços semelhantes, como os orientarias? O que devem esperar e para quem é cada vinho?
Sébastien: Estas duas cuvées são mundos completamente diferentes. PR é uma contração do espaço‑tempo (vê‑se no design da garrafa inspirado numa estrela em colapso). É feito exclusivamente a partir de duas reservas perpétuas: Esprit Nature e a reserva. Aqui os mais velhos educam os mais novos, e os mais novos refrescam os mais velhos. O resultado é um vinho que se mantém fresco e vibrante, mas ganha complexidade com a idade. Em três palavras: riqueza, frescura, energia. MV, por outro lado, é produzido apenas com uvas de Aÿ Grand Cru e contém ainda um terço de reserva perpétua. É um pouco mais rico, mais redondo, com notas de alperce e fruta cozida, perfeito com um bom pedaço de carne ou um charuto. Tenho três filhos – todos maravilhosos, todos completamente diferentes, e amo‑os por igual. É o mesmo com estes vinhos. Prova ambos e provavelmente vais adorar cada um para momentos diferentes, pratos diferentes, companhia diferente.
Mariana: Olhando para o futuro, como vês a evolução do consumo de Champagne na Ásia, especialmente em cidades como Hong Kong? Adaptas a tua abordagem a novas expectativas, ou permaneces firmemente enraizado na tua visão?
Sébastien: O mundo está em constante movimento; as expectativas mudam e não podemos permanecer estáticos. Tenho uma visão artística e criativa do vinho, por isso adaptamo‑nos ao público de amanhã – sobretudo nas questões ambientais e nos teores de álcool – sem nunca abandonar as nossas raízes. Digo sempre que os melhores vinhos Henri Giraud são os vinhos de amanhã, não os de hoje, porque amanhã teremos avançado ainda mais. É como um alpinista a abrir uma nova via: sempre mais longe, sempre mais alto. O público não deve ter de se adaptar ao nosso vinho; somos nós que temos de evoluir com o nosso público.
Mariana: Se tivesses de descrever Henri Giraud em apenas três palavras – e a ti próprio como enólogo em três palavras, quais seriam?
Sébastien: Para mim, como enólogo: Paixão, Tenacidade, Paciência. Paixão – porque sem ela aborrecemo‑nos. Tenacidade – porque é preciso refazer e refazer o ofício incessantemente. Paciência – porque, quando lançamos a Cuvée Argonne, por exemplo, esse vinho viveu um ano inteiro na vinha, outro ano de vinificação e depois sete ou oito anos sobre borras. É verdadeiramente uma profissão de paciência e tenacidade. Obrigado pelas tuas perguntas e pela tua curiosidade – sem pessoas apaixonadas e curiosas como tu, não haveria Champagne Henri Giraud.
Considerações Finais
Depois de traduzir e voltar a viver cada palavra desta conversa, a minha admiração por Sébastien Le Golvet só se aprofundou. Não é apenas o talento ou a criatividade que o distingue; é uma combinação rara de visão orientada para o futuro com um profundo respeito pelos métodos ancestrais, precisão moderna aplicada para reviver tradições quase esquecidas e uma vontade inabalável de tornar cada colheita melhor do que a anterior.
A sua paciência, tenacidade e paixão infundem cada garrafa, dando a Henri Giraud o seu caráter inconfundível — vinhos que parecem vivos, que exigem atenção, que melhoram no copo e na memória.
Foi também uma verdadeira honra conhecer Anne Le Golvet‑Giraud, a esposa de Sébastien, que se juntou a nós nesse dia. Para além do mundo do Champagne, Anne é profundamente apaixonada por medicina anti‑envelhecimento, cuidados de pele e bem‑estar holístico, e tive a sorte de passar algum tempo a conversar com ela sobre estas iniciativas inspiradoras que complementam de forma magnífica a filosofia de longevidade, cuidado e bem‑viver da família.
Como alguém que tem sido empreendedora na indústria do vinho há dezassete anos, o espírito de alpinista de Sébastien ressoa profundamente: a vontade de abrir novos caminhos, de subir mais alto, de nunca se acomodar. Encontros como este lembram‑me porque me apaixonei por este mundo em primeiro lugar – e porque também eu continuarei a subir.
Obrigada, Sébastien, e obrigada, Henri Giraud, por elevarem continuamente a fasquia. O melhor, como dizes, ainda está para vir.
Fica atento à próxima entrevista completa em vídeo com o Sébastien, que chegará muito em breve aos canais Wineworld Xplorer.
Entrevista por: Mariana Lam
Data: 31 de outubro de 2025, Hong Kong
Entrevistado: Sébastien Le Golvet, Chefe de Cave da Maison Henri Giraud
Com agradecimentos especiais a: Dra. Anne Le Golvet‑Giraud

